Chiara Gadaleta: um bate-papo sobre moda e sustentabilidade na prática

Por: Ana Paula Porto

Foi em uma conexão internacional que, nestes últimos dias, conversamos ao vivo com Chiara Gadaleta (ela estava em outro país e topou de primeira essa Live no Instagram). Chiara é fundadora do Movimento Ecoera e especialista consagrada em moda sustentável e veio trazer à tona uma discussão tão pertinente e alinhada com os propósitos do Repassa: as reflexões entre os métodos antigos de se consumir moda e os atuais – ao comprar peças garimpadas nos brechós que trazem impactos socioambientais positivos. 

O bate-papo trouxe luz aos conteúdos informativos e educacionais que fizemos em parceria com o time do Portal Ecoera (@portalecoera) durante o mês de junho em nossas redes sociais, e se consolidou em uma apresentação detalhada e pessoal da Chiara, que gosta de ser relacionada ao termo “vintage” – já que levanta a causa da sustentabilidade aplicada aos mercados de moda, beleza e design há quase 15 anos no Brasil, além de ser uma consumidora assumida de brechós. 

Confira abaixo alguns trechos da entrevista que, essencialmente, apresentou respostas importantes sobre a moda que realmente nos representa e pode te representar também: 

Para começar, é necessário trazermos um contexto quanto à importância do Movimento Ecoera, que desde 2008, tem a missão de trazer as pautas sociais e ambientais aos mercados de moda, beleza e design no Brasil. Além disso, por meio de diversas atividades, práticas e ações, vem contribuindo para a aproximação da cadeia produtiva à sustentabilidade ambiental, social, econômica e cultural.  

Com isso, reintroduzimos nossa convidada da Live e fundadora do projeto, que juntamente com o time de profissionais do Ecoera, vem trazendo consultorias voltadas à sustentabilidade na prática e suas aplicações na moda. Não é incrível? 

É claro que união entre o Repassa e o Ecoera só poderia dar certo. E foi assim que iniciamos o papo para lá de inspirador. 

Essa frase reflexiva, na verdade, é totalmente da Chiara. E logo na abertura da conversa, ela explica, por exemplo, quão marcante eram as décadas de 70, 80 e 90, dadas como uma fotografia clara das épocas, sendo que na virada aos anos 2000, isso acabou se perdendo de algum modo.  

Foi então que ela percebeu que a moda não estava ligada às questões sociais e ambientais. E refletiu qual moda a representaria, qual moda representaria nosso Brasil. Daí em diante começou sua jornada na busca de respostas, que está para completar 15 anos de história. 

“No meu ponto de vista, essa moda tinha que falar sobre o planeta e as pessoas. Ela não tinha só que vestir você, ela tinha que falar. Ela tinha que passar uma mensagem honesta e verdadeira sobre as pessoas e o planeta.” 

Neste despertar, ela também se questionou sobre a necessidade de inclusão das comunidades e artesãs na moda, especialmente, de forma a valorizar e potencializar a cultura nacional, mesmo que algumas pessoas (ainda) não se demonstravam prontas para isso.  

Com o acesso aos biomas, às aldeias indígenas e mesmo às matérias-primas locais, como algodão natural, crochês, palhas de milho, Chiara começou a sentir que eram possibilidades de voltarmos nossos olhares ao que é só nosso, ao que é Brasil, e também abrimos oportunidades às pessoas e famílias envolvidas. “Moda é sobre comida na mesa também”, enfatiza ela. 

Embasada nos quatro pilares da sustentabilidade (são eles: social, ambiental, econômico e cultural) desde 2007, Chiara demonstra sua paixão (e missão) de espalhar essa mensagem da moda com cada vez mais atributos sustentáveis em todas as possibilidades.

“Comecei em 1992. São quase 30 anos com trajetória na moda e 15 com indicadores de sustentabilidade. São esforços contínuos para espalhar essa moda mais positiva, saudável, solidária, sustentável, interessante, divertida, moderna. Uma moda plural.” 

Como Chiara fez questão de nos relembrar, a moda deve representar a nós mesmas(os), numa relação justa entre o planeta e as pessoas. E nós nem teríamos palavras para concordar mais! 

Durante a conversa, ela também relembra de quando teve sua marca chamada Tarântula (nome escolhido não por acaso, pois era diretamente relacionado ao animal que tricota com as mãos) no ano de 2005, e destaca que a grande reflexão que teve era que era uma marca construída com sobras de tecidos especiais, que havia garimpado fora do Brasil.

Quando ela percebeu, neste momento, que havia uma sobra, ainda que pequena, de tecidos, e começou a desenvolver outras linhas adicionais da marca. Inconscientemente, como ela mesma diz, a intenção era não jogar nenhum tecido fora por valorizar cada um. “Foi ali que foi embrionário. Eu falei: bom, se eu produzo esse tanto de resíduo têxtil e sou deste tamanho, imagina a indústria, uma grande marca?”, questiona. 

Depois de refletir com sua própria irmã, foi visualizando conteúdos sobre uso consciente, como a água, e se deparou com uma frase, que dizia: “Seja a voz na sua comunidade”. Foi então que houve a identificação, sabendo que havia ganhado o respeito e espaço dentro comunidade da moda, seu lugar de fala e as pessoas a escutavam, despertou-se a vontade de ser a voz da comunidade. A partir daí que não parou mais. Ainda bem, viu?

Chiara é defensora assumida sobre o protagonismo da cadeia de valor como centro da discussão e trazer a moda não mais linear, mas sim, circular, já que o mundo pede essa mudança urgente. 

Assim, ela ressalta quanto ao papel do Repassa na cadeia produtiva e destaca a forma de consumo no brechó on-line como uma solução no pós-consumo, já que é necessário mencionarmos a cadeia em sua totalidade: pré-consumo, consumo e pós-consumo. 

“Tudo isso que a gente está conversando aqui é porque a gente já entendeu que a gente precisa (1) pensar no descarte, a gente não pensava; e (2) entender qual é o descarte mais adequado, o que estou descartando, qual o resíduo têxtil.” 

Deste modo, a especialista realça o Ecoera como uma consultoria de sustentabilidade para validar discursos dos projetos e empresas, como o Repassa. Afinal, como ela mesma aponta: “Como a gente fala de futuro sem falar de descarte? […] Temos que conscientizar as pessoas da moda. O negócio se dá nesta relação entre marca, serviço e consumidor final. Temos que educar todo mundo”. 

Já pensou em interligar o termo vintage a uma pessoa? A Chiara já e com o maior orgulho:  

“Brechó e Chiara não tem como desassociar. É uma paixão que tenho por esse mistério que é entrar em um brechó e não saber o que vou encontrar. Sempre as roupas de brechó me contam uma história, sempre. E eu nunca sei que história é essa. Então, é esse relacionamento que se dá.” 

Ao longo dos anos, ela foi percebendo a desconstrução da comunidade da moda para receber o uso das roupas de segunda mão e reitera que, mesmo hoje em dia, o melhor caminho é não protagonizar os antigos preconceitos.  

Ou seja, com o crescimento evidente dos brechós recentemente, esta é uma maneira clara de demonstrar o mercado potente das peças duráveis e de qualidade, que ainda evitam os descartes desnecessários, prematuros e inadequados. 

De forma a coroar esta conversa enriquecedora, Chiara também apresentou o Curso Moda e Sustentabilidade na Prática, que contém 8 módulos embasados na Metodologia Ecoera e traz a capacitação de profissionais que desejam levar as agendas urgentes de sustentabilidade para as empresas. 

O curso está disponível neste site e você também pode acompanhar outros materiais relevantes disponibilizados pelo portal, assim como próximas turmas futuras. 

Outra forma de compartilhar da moda do bem com a Chiara, é conhecendo sua vitrine no site do Repassa, com peças práticas e úteis, como ela mesma pontua, e que muito em breve estarão disponíveis para vendas. É o melhor jeito de se inspirar em quem realmente ama roupas de segunda mão, sem sair de casa! 

Bom, agora que fizemos um bom aquecimento sobre este conteúdo imperdível, que tal ouvir e assistir a Live completa aqui no Instagram. Não esqueça de compartilhar com quem também precisa saber, combinado? Até a próxima! 

2 comentários sobre “Chiara Gadaleta: um bate-papo sobre moda e sustentabilidade na prática

  1. Muito importante esse papo. É bacana ver que hoje em dia é mais comum ver pessoas
    começando a comprar em brechos.

    Acredito que num futuro próximo estaremos adaptados a olhar o que realmente é útil e prático em nossa vida. E trazer isso para moda vai ser um passo largo rumo a sustentabilidade.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Concordamos com você, Hellen! Ficamos felizes que tenha gostado do conteúdo e dos aprendizados com a Chiara junto com a gente!
      É muito bom saber que estamos juntas por uma moda cada vez mais consciente, circular e sustentável. Um grande abraço! 💚

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