Eu desenhava roupas no verso das provas quando era criança. Quando cresci, desenhei os vestidos de todos os momentos importantes da minha vida.

Na faculdade, estudei as revistas de moda — literalmente, apontando o que eu abordaria de forma diferente e as diagramações de que gostava. Até fundei um jornal para mulheres. Mas isso foi o mais perto que cheguei de realizar um sonho antigo: o de trabalhar com moda.

O título de ‘Anna Wintour de Taubaté‘ (uma referência à editora-chefe da Vogue e à cidade onde nasci — e também à famosa grávida de Taubaté) que recebi na última aula da faculdade não me deixa mentir: eu costumava anunciar aos ventos que esse era o meu maior sonho.

Não existe um motivo para a carreira na moda não ter dado certo; existem vários: ingenuidade, ambição, limitações geográficas e até talento. O dia em que tentei aprender a costurar foi também a primeira vez que minha mãe quebrou a agulha da máquina dela (com muitos anos de uso).

Então, eu adormeci uma parte de mim para me encaixar no que o mercado de trabalho queria que eu entregasse. Comecei a minha carreira sendo moldada para atender às necessidades das empresas em que trabalhei. E aquela parte de mim foi ficando pequenininha, esquecida.

Abandonei as saias longas da minha melhor época hippie chic, troquei os acessórios extravagantes por minimalistas e fiz o possível para atender às normas de vestimentas que o meu emprego do momento esperava.

Eu transformei o meu trabalho na minha personalidade e nos meus sonhos sem perceber.

Depois de um tempo, parou de ser suficiente. Eu parei de dormir, de sair de casa e de apreciar a minha própria companhia. Me tornei insegura, triste e doente. E o processo de encontrar a si mesma não é bonito. Envolve muito mais do que apenas você e afeta diretamente as pessoas à sua volta.

E quando me reencontrei, sabia que precisava resgatar as partes que perdi ao longo do caminho até ali. Foi assim que vim trabalhar no Repassa. Não se engane, eu não desenho roupa nenhuma – nem mesmo monto os looks que você pode ver nos editoriais e nas redes.

Mas nossos sonhos nem sempre se realizam da forma como pensamos e, posso dizer? Geralmente, é muito melhor do que imaginamos.

Por exemplo, durante o Brasil Eco Fashion Week, eu tive uma realização: eu nunca sonhei em participar do backstage de um desfile. E se eu sonhei, provavelmente não foi da maneira que estava acontecendo ali.

Mas enquanto eu vivia aquele momento, senti meu peito encher de algo que eu não tinha conseguido nomear. Senti minha pele arrepiar. Felizmente, eu entendi cedo. Durante a passagem do som. Era a sensação de sonho realizado.

Acho que nada chega aos pés dessa sensação. A de olhar para tudo que te fez chegar ali e ter orgulho da trajetória, mas mais importante que isso: ter a certeza de que valeu a pena.

Não foi o primeiro sonho que realizei, eu sempre fui muito privilegiada nisso. Mas foi o primeiro sonho que eu não sabia que tinha e que fez tudo valer a pena.

“Ah, Mari, mas essa coluna não é sobre moda plus size?”

É, sim, amiga. Mas eu só posso falar sobre isso hoje por que a Mariana pequenininha costumava desenhar vestidos no verso das provas. É por causa dela que estou aqui hoje.

Que, em 2025, você também realize os sonhos que a criança que você foi um dia imaginou. Vale a pena, minha querida. Eu juro que vale.

Até o ano que vem!

Beijo da gorda,

Mariana Tirelli.


Ser uma criança gorda, adolescente gorda e se tornar uma mulher gorda muda muito a sua percepção do mundo.

Minha intenção não é reforçar nenhum estereótipo, mas entendemos muito cedo que nosso padrão corporal não é o desejado – de bonecas a filmes, a protagonista segue sempre o mesmo padrão, que não é o nosso. Isso muda a forma como nos comportamos, mas também como escolhemos nos vestir, nos portar e até com quem decidimos nos relacionar.

Ontem, recebi um carinho virtual que aqueceu meu coração. Publicamos um reels em que mostramos as marcas que mais gostamos. O que era uma brincadeira levantou uma discussão interessante: por que eu escolhi diferente da maioria das Repassetes em todas as ocasiões?

Bom, a verdade é que eu sou uma aquariana nata (não à la Chico Moedas), mas daquelas em que a teimosia é tão parte da personalidade quanto o idealismo. Curiosamente, dessa vez, não foi questão de signo, mas de vivência. Antes de explicar, se você ainda não viu, vem assistir ao vídeo para entender melhor:

Note que eu, a mulher ao fundo (e grande), não escolhi entre as marcas Maria Filó e Farm. Isso se deve ao fato de que eu nunca consegui comprar nada em nenhuma dessas marcas. Os tamanhos são pequenos, a grade é reduzida, e, embora exista uma tentativa de inclusão, sabemos que mulheres plus size não conseguem encontrar peças nessas lojas.

O curioso foi que, nos comentários, logo que o vídeo foi postado, a identificação foi imediata: em alguns momentos, por ter a personalidade “do contra”, mas, na maior parte, por entenderem que minhas escolhas foram baseadas na minha vivência como uma mulher grande.

Eu, que cresci tendo que explicar minhas inseguranças ou justificar minhas escolhas, me senti vista e grata por não ser “sozinha no mundo.”

Mulheres que passaram pelo mesmo que eu me entenderam, mesmo que eu não tenha dito nada. E elas se identificaram. Foi incrível encontrar esse safe space, onde não preciso ser ninguém além de mim mesma e ainda posso representar mulheres gordas nesse universo do Repassa (okay, talvez eu tenha ido um pouco longe demais, mas me dá um desconto, vai? Fiquei muito feliz!).

O ponto é que falar sobre corpos grandes em um universo fashion, numa era em que “I ♥️ Ozempic” estampa camisetas em passarelas mundo afora, ainda é um tabu. Ainda existem barreiras. Ainda é difícil e, muitas vezes, não natural. E ainda assim, tudo o que eu fizer será muuuuuito pouco.

Mas é um alívio e um respiro saber que, às vezes, não é necessário dizer nada; basta simplesmente ser incluída. O que quero dizer é que: talvez, se eu não estivesse ali, as interações fossem medianas, e a gente nunca mais postasse algo do tipo – e todas essas mulheres, que tiraram um tempinho do dia para comentar e interagir, teriam passado batido por esse post. Ou talvez não. Nunca saberemos.

O que sabemos é que nenhuma experiência é única. E que basta sermos fiéis a quem somos para encontrarmos companhia nas nossas lutas! Isso é maravilhoso e assustador. Mas viver também é, então, let’s bora!

Beijo da gorda,

Mariana Tirelli.


Como boa jornalista, eu sempre encontrei na escrita uma forma de expressar os meus sentimentos. Tive incontáveis colunas dos mais diferentes tópicos possíveis. Escrevi de poemas à letras de músicas, ora publicadas, ora guardadas num bloco de notas.

Já tem algumas décadas que eu transformei as teclas – ou as canetas – em velhas amigas, confidentes e compreensivas. E, pela primeira vez, me encontrei sem saber o que escrever.

O mundo desde que eu escrevi minha primeira coluna sobre ser uma mulher plus size definitivamente não é o mesmo.

Mas é curioso pensar que, mesmo anos depois, o nome desta coluna continua fazendo sentido.

Há 7 anos, eu começava a registrar os desafios do meu dia a dia, os pensamentos compreensíveis e os questionamentos revoltados, enquanto tentava encontrar apoio – nas pessoas? no mundo? num espaço digital? Depois de tanto tempo, ainda não sei ao certo.

Naquela época, nomeei minha coluna de “Tão bonita de rosto” para responder àqueles que se sentiam no direito de opinar sobre a minha aparência. Agora, com vinte e sete anos, essas pessoas já não são tão “transparentes” nas suas opiniões.

Certa vez ouvi de um “amigo” que eu não era o “padrão da elite paulistana, que prefere mulheres pequenininhas e delicadas”. Bom, pequena eu nunca fui. Mas delicada eu queria ser.

E tentei ser por muito tempo. Mas a frequência com que eu bato a cabeça, prendo o cós da calça numa porta, ralo os joelhos e corto os dedos não me deixa mentir. É impossível, para mim, ser delicada.

Não que eu quisesse fazer parte de algum padrão, afinal, eu nunca fui o padrão, e o que que tem? Mas esse é o tipo de comentário que me deixa reflexiva sobre o que me faz ser tão diferente.

Com tanto comentário, tanto padrão bizarro para seguir e com tantos questionamentos, eu acabei aprendendo algumas coisas ao longo da vida.

A primeira delas é que eu não preciso me encaixar no ideal de ninguém além do meu.

A minha irmã me fez aceitar o meu lado desastrada com um “Kit Mariana” – uma necessaire de primeiros socorros que ela busca toda vez que eu me machuco, sem fazer disso um estardalhaço. Para Lara, a irmã em questão, faz parte do meu charme ser destrambelhada, no melhor estilo Bridget Jones.

A segunda coisa é que eu sou grande que não caibo em mim. E os incomodados que se retirem! Eu não vou me diminuir para caber em espaços pensados à quem atende o padrão – e só.

Parece bobagem, mas para mulheres gordas até comprar uma cadeira pode ser estressante! Afinal, quem pesa mais de 120kg – o padrão de peso suportado?

E a terceira coisa, é que eu tenho liberdade para mudar. E preciso fazer isso. Então, não se assuste se encontrar opiniões divergentes daqui para a frente. Eu sou um pedacinho de cada coisa que leio, ouço, amo e vivo. E essas coisas mudam o tempo todo.

Parafraseando nosso saudoso Orkut, “quem se descreve, se limita”, deixo aqui entrelinhas abertas à interpretação, com a exceção da seguinte: eu continuarei tentando ser a mulher que sempre quis ser. Independente dos padrões de qualquer um.

Beijo da gorda, 

Mariana Tirelli.